Brasão de Armas da Duquesa de Sussex

A Duquesa de Sussex, Rachel Meghan Markle, finalmente recebeu suas armas próprias, as mais esperadas pela comunidade heráldica neste ano.

Desde antes do casamento com o Príncipe Harry do Reino Unido, havia muita especulação sobre quais seriam as armas da Duquesa. Afinal, a relação conturbada de Meghan Markle com o seu pai parecia um problema para o College of Arms.

Explique-se: não se poderia seguir com o mesmo expediente do casamento anterior, quando o Príncipe William casou-se com Catherine Middleton. Na ocasião, o pai dela recebeu um brasão de armas, que foram modificadas para que a futura Duquesa de Cambridge tivesse assim suas próprias armas. No fim das contas, ocorreu o mais provável: Meghan ganhou seu próprio brasão.

Na manhã deste sábado, o Palácio de Kensington, residência dos Duques de Cambridge e Sussex, publicou a imagem abaixo, com as armas próprias da Duquesa:

As Armas da Duquesa de Sussex

As armas de Meghan Markle, Duquesa de Sussex: “De azul, duas bandas de ouro entre três penas de prata”, aqui num escudo partido com as armas de seu marido, o Duque de Sussex. Fonte: Palácio de Kensington.

Kensington publicou ainda uma nota tratando das armas da Duquesa, a qual reproduzo aqui, traduzida:

Um brasão de armas foi criado para a duquesa de Sussex. O design das armas foi acordado e aprovado por Sua Majestade a Rainha e pelo Sr. Thomas Woodcock (Rei de Armas da Ordem da Jarreteira e Heraldo Sênior na Inglaterra), baseado no College of Arms em Londres.

Sua Alteza Real trabalhou junto ao College of Arms durante todo o processo de design para criar um brasão que fosse pessoal e representativo.

O fundo azul do escudo representa o Oceano Pacífico ao largo da costa da Califórnia, enquanto os dois raios dourados do outro lado do escudo simbolizam a luz do sol do estado natal da Duquesa. As três penas representam a comunicação e o poder das palavras.

Sob o escudo, na grama, há papoulas douradas, a flor do estado da Califórnia, e wintersweet, flor que cresce no Palácio de Kensington.
É costume que suportes sejam designados para os membros da família real, e que as esposas dos membros da família real tenham um dos suportes provenientes das armas de seu marido e um relacionado consigo mesmas. O suporte da duquesa de Sussex é um Passeri com asas elevadas como se estivesse voando e um bico aberto, que como a pena representa o poder da comunicação.

Uma coroa também foi designada para a duquesa de Sussex. É a Coroa estabelecida por um Mandado Real de 1917 para os filhos e filhas do Herdeiro Aparente. É composto de duas cruzes patéas, quatro flores de lis e duas folhas de morangueiro.

As armas de uma mulher casada são mostradas juntas às de seu marido. O termo técnico em inglês é “impalled”, ou seja, colocados lado a lado no mesmo escudo. (em português, Partido)

Thomas Woodcock, Garter King of Arms, disse: “A Duquesa de Sussex teve um grande interesse no design. O bom design heráldico é quase sempre simples e as Armas da Duquesa de Sussex estão bem ao lado da beleza histórica dos quarteis das Armas britânicas. A heráldica como meio de identificação floresceu na Europa por quase novecentos anos e está associada a pessoas individuais e a grandes corporações, como Cidades, Universidades e, por exemplo, as Livery Companies na Cidade de Londres. “

As armas de Meghan, aludem a sua origem, o mar e o sol da Califórnia, além de sua realidade como comunicadora. As penas decerto se referem ao seu antigo blog, The Tig. O poder das palavras é, evidentemente, importante para a Duquesa de Sussex, como atriz, mas principalmente como ativista pelos direitos das mulheres.

Papoulas Douradas

A papoula dourada, emblema floral da Califórnia, era de fato esperada em algum lugar do brasão. Na carta de consentimento emitida pela Rainha Elizabeth II, por exemplo, as flores já haviam aparecido:

Emblema representando Meghan Markle na carta de consentimento. Fonte: Daily Telegraph.

O emblema acima traz o alho-poró, emblema floral do País de Gales, tendo em vista que os netos da monarca são filhos do Príncipe de Gales, acompanhado das papoulas californianas, além da Rosa, que é flor nacional dos Estados Unidos (e, de igual forma, da Inglaterra), e de dois ramos de oliveira, também provenientes das Armas Nacionais dos Estados Unidos. Sim, os Estados Unidos possuem um brasão de armas, mas isso é assunto para uma outra ocasião.

Por último, e não menos importante, uma recomendação para todos, direto do mais sênior dos heraldos britânicos, o Rei de Armas da Jarreteira:

O bom design heráldico é quase sempre simples e as Armas da Duquesa de Sussex estão bem ao lado da beleza histórica dos quarteis das Armas britânicas.

Pensem bastante nisso quando estiverem definindo suas armas pessoais.

Boletim do College of Arms, 54

Fachada do College of Arms, Londres.

College of Arms, Londres. Foto por Georgia Evelyn Stants

O College of Arms, Autoridade Heráldica da Inglaterra, do País de Gales e de boa parte da Commonwealth (Austrália e Nova Zelândia, por exemplo), produz um boletim trimestral com notícias sobre novas armas concedidas ou a conceder, palestras oferecidas por seus Reis de Armas e visitas aos arquivos da instituição. Esta Newsletter é encaminhada por e-mail para todos que subscrevam, e também pode ser acessada no site do College.

Estou tentando cultivar o hábito de ver os meus e-mails mais frequentemente, e para isso, esta newsletter é muito boa, afinal sua periodicidade me dá tempo suficiente para limpar a minha caixa de entrada antes de recebê-lo. Sem mais delongas, ei-lo.

Boletim do College of Arms, 54

Nesta edição, que chegou ao meu e-mail no fim de Abril, constam algumas notas bem interessantes. A primeira seção traz as armas da St. Edward’s School, uma das entidades que faz parte da Universidade de Oxford. Chamou a atenção o fato de os paquifes não serem das cores das armas, o que me causou alguma estranheza. Luís Marques Poliano, em seu Heráldica, nos diz:

Os paquifes são tiras de couro recortadas e coloridas com os esmaltes principais do escudo, caindo do timbre sobre os lados, tendo origem nas “capelinas” que, durante a Idade Média, eram usadas sovre os elmos para evitar o seu excessivo aquecimento pelo sol.

Vera Lúcia Bottrel Tostes (1983, p. 117) corrobora o primeiro, em seu Princípios de Heráldica.

[Os paquifes] No entanto, devem estar nos esmaltes principais do escudo.

E indo mais adiante, Alejandro de Armengol y Pereira (1933, p. 110), no seu Heráldica diz o mesmo, e parece querer reforçá-lo, pois assim o faz três vezes:

“Los lambrequines representam trozos de tela, cortados en forma de hojas, de los colores y metales que entran en la composición del escudo. […] La forma de trozos de tela cortados y volateando, siempre de los mismos esmaltes del escudo, es característica en los lambrequines. Se dejan en forma de plumajes para los nuevos nobles, siempre de los esmaltes del escudo.

Realidades geográficas explicam diferenças estéticas

Entretanto, a heráldica é uma arte, e como arte, a grande chave para compreender isto é recordar que a estética difere de lugar para lugar. Ou seja, o que se faz na heráldica portuguesa não necessariamente se fará na heráldica inglesa. Para comprovar isto, fui em busca de referências em inglês. Charles Boutell (1908, p.136), heraldista inglês do século XIX, descreve os paquifes (em inglês, mantling) da seguinte forma em seu Heraldry:

Mantling, or Lambrequin. A small mantle of some rich materials, attached to the knightly basinet or helm, and worn hanging down. It is usually represented with jagged edges, to represent the cuts to which it would be exposed in actual battle.

Placa de Sir Hugh Stafford, Lord Bourchier. c. 1421

Desta vez não há nenhuma referência a cores. Diz-se apenas “um pequeno manto de ricos materiais.” Percebe-se pois que os mantos são questão de estilo na heráldica inglesa. O que eventualmente eu pude confirmar em Heraldry for Craftsmen and Designers, onde William St. John Hope nos informa que:

 

 

 

 

The usual colour for the mantling, for a long time, has been red, and its lining of ermine or white fur, but there is ample precedence for a difference of treatment, as may be seen in that rich collection of ancient heraldic art, the stall-plates at Windsor.

“A cor usual para os paquifes, por um longo tempo, foi o vermelho, e seu forro, de arminhos ou de peles brancas, mas há ampla precedência para diferenças no tratamento, como pode ser visto naquela rica coleção de placas de cavaleiro em Windsor” (tradução nossa)

Assim, faz sentido considerarmos que, especialmente na era áurea da heráldica inglesa, os paquifes eram vistos como outra peça de indumentária, não precisando combinar com as cores do brasão em si. Enfim, o brasão do St. Edward’s College está conforme às regras mais corretas para a heráldica inglesa.

Brasões de Família não existem

O título é auto-explicativo. Mas eu vou repetir, para ajudar a fixar. Brasões de Família não existem. Então não jogue o seu dinheiro no lixo.

A comunidade heráldica internacional é unânime, e nós no Heráldica Brasil também precisamos ser: Brasões são concedidos a pessoas, e não a famílias. O que existe é o brasão pessoal, que é passado de pais para seus filhos através de herança, como um livro, um quadro ou qualquer outra propriedade. Igualmente, isto vale também para os brasões das famílias reinantes nas monarquias modernas. Para a Heráldica, as armas não pertencem à família e muito menos ao estado, mas sim ao monarca como chefe de estado. Afinal governa-se em nome dele. E os seus parentes recebem brasões criados a partir do dele, como em todas as famílias armoriadas. E após a sua morte, as suas armas passam para o seu filho e sucessor no trono.

E como eu sei se tenho direito a um brasão?

Apenas através de pesquisa genealógica você pode descobrir se algum de seus ancestrais recebeu carta de brasão de algum monarca ou colégio heráldico. Caso não encontre, você não possui herança heráldica, o que não é um problema, afinal é o caso da maioria das pessoas. Não possuir parentes armoriados não te impede de criar o seu próprio brasão.

Entretanto, você NÃO PODE usar o brasão de alguém que não tem nenhuma ligação familiar com você. Isso é desonesto, além de ser de péssimo gosto.

O François Velde, idealizador do heraldica.org, cravou uma vez a seguinte máxima:

François Velde, sobre Brasões de Família.
Originalmente publicado no grupo Heráldica Brasil, no Facebook.

Estamos de volta, para mais Heráldica!

Senhoras e senhores, é muito bom estar de volta a publicar, agora no novíssimo Heráldica Brasil.

Nas últimas semanas, estive trabalhando secretamente neste novo blog, dividindo o tempo destinado a ele com o meu novo projeto acadêmico, um blog de crônicas sobre a época medieval chamado Dias do Reino (que também está em fase inicial). Nas próximas semanas, aos pouquinhos, vou adicionar os links e atalhos necessários. Os posts mais visitados do Blog de Armoria também serão transferidos para cá, e depois disso, o Heráldica Brasil começa oficialmente os seus trabalhos, numa roupagem mais madura e mais cuidadosa do que antes.

Minhas armas pessoais por Lee Lumbley

Minhas armas pessoais, desenhadas pelo heraldista americano Lee Lumbley, assinando o retorno.

No último ano, muitas mudanças ocorreram, entre elas o meu retorno à Universidade e o meu primeiro projeto bem-sucedido, o brasão da minha cidade, São Bento, que foi oficializado (logo deve ter uma página sobre ele por aqui). E entre eles veio a oportunidade de adquirir um endereço próprio, e parar de depender do limitado Blogspot.

Como sempre, o blog será fiel aos princípios aos quais eu sempre me propus dentro da heráldica. Como já se sabe, eu não sou um artista heráldico. Eu sou um designer gráfico que vez por outra produz algumas obras heráldicas, quando tem tempo livre. Não vendo e não cobro por obras heráldicas, especialmente porque sei de vários casos de artistas que levaram calote de “clientes bem-intencionados”. Eu que não me arrisco. Outro ponto importante, é que assim como no Blog de Armoria, no Heráldica Brasil também não nos metemos com o pessoal das lojinhas de brasões. Relembrando as palavras do Célebre François Velde, idealizador do heraldica.org:

Qualquer um que afirma poder encontrar suas armas apenas olhando num livro ou numa base de dados, ou é um ignorante ou é um mentiroso.

Por fim, para concluir a tríade das minhas máximas sobre heráldica. No Heráldica Brasil se fornece conhecimento, informação, e vez por outra, desenhos e diversão heráldica. Assim, garantir a veracidade genealógica e o direito do brasão é de inteira responsabilidade de quem busca a informação. Então não venham me perguntar “Qual o meu brasão”, porque isto eu já respondi lá no grupo Heráldica Brasil, no Facebook.

E se você não está lá, sinta-se à vontade para pedir entrada. Apenas não esqueça de responder às perguntas da administração.

Biblioteca no ar

E agora, de volta ao trabalho. Antes de fecharem, deem uma olhada no menu do blog. Há um link para um dos meus sonhos antigos, a Biblioteca do Heráldica Brasil. Já tem alguns volumes disponíveis.

Até a próxima publicação!

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