A nova “nobreza” da internet, novamente

Há três anos eu escrevi sobre a nobreza fake da internet. E hoje decidi falar mais sobre isto, a despeito da opinião desta gente metida a nobre. Sobre uma meia dúzia de cidadãos com delírios de grandeza, que colocaram em suas cabeças que são nobres  titulados e não desistem deste ideal por nada na vida, se afundando mais e mais em suas próprias mentiras e devaneios.

Recordemos. A entrada neste meio de néscios é simples, e nós, heraldistas, temos uma notável parcela de culpa nisto. Eu já falei aqui que brasões de família não existem, mas para cada heraldista correto, há três prostituindo a heráldica, abusando dela para vender chaveiros, canecas e quadros.

Antes de prosseguir, um aparte, porque os ânimos andam muito exaltados na internet. Antes que os defensores das lojinhas de brasões cheguem aqui, em polvorosa, dizendo que eu não respeito o livre-comércio, que eu não respeito a arte e o trabalho alheio: Eu não tenho nada contra quem vende quadros, chaveiros e canecas com brasões.

Mas eu tenho muito contra quem vende heráldica falsa, que para além de enganar o incauto que não sabe da ciência heroica, ainda desrespeita a heráldica e todos os bons heraldistas, vendendo mentiras. Pessoas como estas sequer são aceitas no grupo deste blog.

Mas voltando ao assunto anterior:

Quem é a Nobreza Fake?

É perfeitamente compreensível que as pessoas queiram ser ou parecer mais nobres.

Não há demérito nenhum em querer exibir um título, desde que você o adquira por meios lícitos, morais e não inventando um título falso, o que é de péssimo gosto e ainda pode levar você para a cadeia, por falsidade ideológica.

Estas pessoas, usualmente, querem ser nobres a qualquer custo, e começam a adicionar sobrenomes nobres ou estrangeiros, aos seus próprios nomes. É um von aqui, um Palaiologos acolá, uma denominação territorial medieval, ou mesmo inventada, como Rei dos Visigodos da Casa Alexandrina Comnênia da Beócia Inferior.

E qual a primeira coisa que fazem? Exatamente. Inventar um brasão. Como se um brasão fosse alguma prova de nobreza. E começam a compartilhar o dito brasão, como se ele fosse uma prova definitiva de bom nascimento.

Vamos lembrar. Na primeira publicação sobre este tema, trouxe algumas palavras do renomado heraldista espanhol Francisco Piferrer (1858, p. 15):

Sobre a Nobreza. "Tratado de Heráldica y Blasón", Página 5. Disponível na Biblioteca.

15. Os títulos, timbres, insígnias e brasões dão, por certo, realce à nobreza; mas não são necessários, nem por si sós são suficientes para conceder nobreza. O nobre sem valor nem virtude, que se pavoneia com seus timbres e brasões, deixa de ser nobre; é um homem vulgar e plebeu. Ao contrário, por mais humilde que seja sua posição, é verdadeiramente nobre o homem que é valente e virtuoso.

Ou seja, estas pessoas não são nobres porque tem um brasão. Se assim fosse, eu também seria um nobre, porque eu tenho um brasão pessoal. São só tolos em busca de autopromoção e algum status social, mesmo este, mais falso que nota de trinta, alimentado por perfis fakes e por enganar pessoas, geralmente de mais idade ou menos estudo.

Felizmente, há vários espaços na internet onde estas pessoas recebem o que verdadeiramente merecem, reprovação e sátira. Em especial, recomendo o grupo Realeza, nobreza e protocolo. Lá, esses nobres são chamados de Desgothados, justamente por estarem fora do Almanach de Gotha, antigo anuário que é referência no que diz respeito a casas reais e nobres ao redor do mundo. Se você ver uma pessoa ostentando um título e achar que é um falsário, basta publicar lá. Os membros serão solícitos em puxar a ficha do fulano, e você até mesmo poderá dar umas boas risadas.

Como um bom heraldista vira um boboca?

Quando um heraldista ou desenhista heráldico aceita “trabalhar” para esta gente, ele passa a fazer parte da mesma fábrica de mentiras. Trabalhar entre aspas, o mais correto seria dizer “ser explorado”, afinal o que mais dizem os tais “nobres” é:

Infelizmente não temos dinheiro, mas poderemos recompensá-lo dignamente por tão nobres feitos em nome da gloriosa restauração do Soberano Trono Espacial da Casa de Seiláosburgo-Semnocionensis da Europa, França e Bahia. Você poderia ser o nosso Rei d’Armas, e desfrutar de todas as nossas reais benesses.

Iludido pelo título de Rei de Armas, que vale menos que uma balinha no mercado do bairro, e encantado por todas as reais benesses, que, reitero, também não valem nada, este heraldista que até tinha potencial, acaba por entrar numa espiral de gabolice que o levará, em algum ponto de sua vida, a uma vergonha absurda de todo o tempo e trabalho que perdeu.

Mas até que isso aconteça, veremos infelizmente muitos destes heraldistas cairem nas garras destes farsantes.

Dicas para heraldistas (e porque não para falsários também?)

Se você foi convidado por uma destas casas, para fazer estas funções, a minha sugestão é que você recuse, por todos os motivos acima.

Casas nobres de verdade pagam por serviços de heraldistas, designers e artistas em geral. O mecenato é uma atividade extremamente nobre, que foi popularizada ao menos desde o século XIV, mas pode-se mesmo considerar que existe desde sempre, afinal ser nobre e ser esteticamente agradável andam lado a lado desde que o mundo é mundo. Se você é um heraldista ou artista heráldico, seja digital ou manual, nunca aceite trabalhar de graça. Além de ser péssimo para o seu bolso, é péssimo para a sua reputação.

Essa dica vale também para os falsários: Se você quer material de qualidade para seguir com a sua brincadeira, pague por ele. Uma mentira passa mais fácil por verdade quando parece verdade. Um certo nobre fake aqui do Brasil gastou um bocado de dinheiro com domínios e hospedagem web para dar um visual mais profissional ao seu devaneio. E funcionou bem, esta pessoa ganhou bastante atenção do que quando só usava blogs gratuitos e brasões malfeitos.

Outra coisa a se ter em mente: Nobres são discretos quanto à sua nobreza. “O nobre que se pavoneia é vulgar e plebeu”, já disse Piferrer. Eles não ficam publicando sobre a sua nobreza no Instagram, eles apenas são nobres, mas eles preferem ser reconhecidos pelo que fazem e consideram importante, como qualquer outra pessoa.

Um príncipe piloto

Um bom exemplo é o Arquiduque Ferdinand von Habsburg, herdeiro da linha de sucessão dos Habsburgos. Ele é piloto de Fórmula 3, e praticamente só fala em Fórmula 3 em suas redes sociais. Nenhuma menção a nobreza, nenhuma menção a sucessão ou política. A figura mais próxima de um brasão é um logotipo que lembra muito vagamente uma águia.

Logotipo de Ferdinand Habsburg, Arquiduque e piloto de corridas.

Em resumo: se você ver um “nobre” se vangloriando todos os seus títulos nas redes sociais, é bem provável que ele não tenha título nenhum. Se você for um nobre Fake, a minha dica é que consiga passatempos mais nobres do que exibir brasões ou falar mal do governo. Sugiro poesia, crítica cultural ou um esporte que tenha fama de nobre, como Pólo, Cricket, Rugby ou Tênis. Política é algo a evitar, pelo cenário em que vivemos.

Mas talvez a maior e mais importante das marcas de um nobre é a ortografia. Eu nunca vi uma publicação de uma Casa Real de verdade ter sequer um erro ortográfico ou fugir à netiqueta. São sempre textos primorosamente escritos, livres de quaisquer erros de escrita, concordância, coesão e coerência. Se você se diz nobre, mas escreve em

Isto posto, a presença de um nobre na internet pode ser sintetizada em ao menos três máximas:

Discrição, cuidado visual e atenção à escrita. Tendo isto em mente, mesmo se você não quiser parecer um nobre, vai acabar parecendo.

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  1. Reinaldo

    É como diz o ditado, carroça vazia faz muito barulho.

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