Quanto custava um brasão no Império?

Há alguns dias, no Grupo do Facebook, perguntaram sobre o brasão de um nobre do Império. E em busca desta resposta, tropeçamos num dado interessante, sobre o qual decidimos nos debruçar hoje. A verdade é que no império, a Heráldica não era concedida a título gracioso, e nem todo nobre registrou armas para o seu título, pois não custava barato.

Em 1860, o registro de um brasão podia custar o equivalente até quase 600 mil réis, ou 600 gramas de ouro.

Fazendo a conta com o valor do preço do ouro nos dias de hoje, é uma soma astronômica, de fato. Há, sem dúvida, inúmeros fatores que temos que considerar aqui, entre eles a inflação, o preço do ouro, etc. etc. Mas eu deixo esses fatos econômicos para quem puder melhor tratar deles. Por ora, trabalharei com os dados coletados por Anibal de Almeida Fernandes, 4º neto do Barão de Cajuru, que nos traz algumas informações sobre a economia em seu “Estudo comparativo entre quatro fortunas do Império Brasileiro na década de 1860” (2011):

O primeiro dado para o qual atentamos é que “em 1860, 1 conto de réis (1:000$000=1 milhão de réis) comprava 1 kg. de ouro” e “para ser nomeado Senador do Império o interessado tinha que comprovar uma renda anual de 800$000.” Guardemos esta localização histórica e temporal.

O número de nobres sem brasão (como o Barão de Croatá) no Archivo Nobiliarchico Brasileiro supera por muito o de nobres armígeros.

Para não nos fixarmos no padrão-ouro, buscamos um outro estudo, que tratasse de valores. Um excerto da “Evolução dos preços e do padrão de vida no Rio de Janeiro, 1820-1930” (1971), da Revista Brasileira de Economia (FGV), nos apresenta alguns salários anuais: Um imigrante trabalhando numa fábrica de velas ganhava 10 mil réis mensais (em 1861), um Mestre Pedreiro livre ganhava 44.120 réis mensais(em 1863). Um professor de primeiras letras aprovado em concurso, no melhor dos casos, ganhava pouco mais que 40 mil réis mensais (500$000 anuais, de acordo com a Lei das Escolas de Primeiras Letras, de 1827).

O valor da carta de brasão era mais de dez vezes isso

Pedro Moniz de Aragão, diretor do Arquivo Nacional responsável por publicar o ‘Catálogo da Exposição de Modelos de Brasões e de Cartas de Nobreza e Fidalguia (1965), conta-nos:

“Segundo folha impressa, apensada ao Armorial Brasiliense de Luís Aleixo Boulanger, datada de 2 de Abril de 1860, eram os seguintes os preços então cobrados:”

Requerimento a S.M. O Imperador e passos a respeito: 30$000

Pergaminho (para álbum de quatro folhas): 32$000

Carta de Nobreza e Fidalguia:
Caracteres dourados: 180$000
Cópia das armas para a Secretaria do Império: 25$000
Dito, para o arquivo: 25$000
Composição de Armas Novas, conforme os preceitos da ciência: 25$000
Heráldica: 25$000
Encadernação em veudo: 50$000

Despesas Fixas:
Escrevente do Cartório da Nobreza: 40$000
Despacho à Secretaria do Império: 10$000
Emolumentos do Escrivão da Nobreza e Fidalguia: 50$000
Ditos do Rei de Armas: 50$000
Para Direitos no Tesouro: 20$000
Selo da Carta de Nobreza: 30$000

O total, para uma certificação completa, seria, portanto, de 592$000. Em baixo, sob uma linha à guisa supostamente de soma, aparece a importância de 366$000. A diferença pode se referir a custos relativos à carta, possivelmente às letras douradas e à encadernação em veludo, que somadas custariam 230 mil réis. Na Biblioteca do Heráldica Brasil, por exemplo, encontra-se a Carta de Brasão da Baronesa de Sertório, que possui uma capa aveludada, mas não possui letras douradas para além do nome do Imperador. Baseado nestas informações, parece correto afirmar que Boulanger oferecia cartas de brasão mais ou menos elaboradas para os solicitantes.

Uma cópia do Brasão da Baronesa de Sertório, concedido por Luís Aleixo Boulanger, está na Biblioteca do Heráldica Brasil.

Ainda assim, não era nada barato, afinal quem queria um brasão tinha de pagar todos os custos necessários. Fernandes (id.) nos conta, por fim, que dos 986 titulados no Império, apenas 239 tiveram brasões registrados.

Referências

FERNANDES, Anibal de Almeida. Estudo comparativo entre quatro fortunas do Império Brasileiro na década de 1860. 2011. Disponível em: https://www.genealogiahistoria.com.br/index_historia.asp?categoria=4&categoria2=4&subcategoria=56. Acesso em: 5 jun. 2022.

LOBO, Eulalia Maria Lahmeyer et al. Volução dos preços e do padrão de vida no Rio de Janeiro, 1820-1930 – resultados preliminares. Revista Brasileira de Economia, Rio de Janeiro, v. 25, n. 4, p. 235-266, 01 out. 1971. Disponível em: https://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rbe/article/view/67. Acesso em: 05 jun. 2022.

Pedro Moniz de Aragão (org.). Catálogo da Exposição de Modelos de Brasões e de Cartas de Nobreza e Fidalguia: colônia – reino unido – império. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1965.

Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II

Neste fim de semana, o Reino Unido comemora os setenta anos da coroação da segunda monarca mais longeva da história. A Rainha Elizabeth II chega aos 70 anos de reinado este ano. Está atrás apenas de Luís XIV, o Rei-Sol de França, que reinou por 72 anos e 110 dias.

E foi para esta coroação que as armas do Reino Unido sofreram a sua última modificação. Não no brasão em si, mas no desenho.

As novas “Bestas da Rainha”

Para a coroação de Elizabeth II, na capela de Westminster, em junho de 1952, o Ministério de Obras Públicas do Reino Unido encomendou ao escultor James Woodford uma série de dez esculturas de vários badges (insígnias) reais, que ficaram conhecidas como “As Bestas da Rainha”. Estas esculturas são inspiradas outras, que foram encomendadas pelo rei Henrique VIII, para decorar o seu casamento com Jane Seymour, em 1536.

“As Bestas da Rainha”, Kew Gardens, Richmond. Foto por Ramson.

 

Dentre as esculturas, a mais importante era o Leão da Inglaterra. Sendo a única besta entre as dez que tinha a cabeça coroada, sua função era a de sustentar as armas do Reino Unido. Porém havia algo de diferente. A Historiografia falha em definir se ela é fruto de conversas entre Woodford e o College of Arms, se foi uma pedido do Ministério ou mesmo uma ideia do próprio Woodford, porém o terceiro quartel estava diferente. A Harpa, que representa a Irlanda do Norte como parte integrante do Reino Unido tinha um desenho diferente, mais gaélico.

O novo desenho aproximou as armas do (teórico) Reino da Irlanda (de facto, a Irlanda do Norte) das armas da vizinha República da Irlanda, que por sua vez já não exibiam mais a harpa com cabeça humana e seios à mostra desde o ano de 1922.

Dois anos depois, em 1954, a Rainha expressou sua preferência pela harpa em estilo gaélico. Desde então as armas reais tem sido desenhadas neste estilo. Pode-se notar que a harpa antiga sumiu da maioria dos lugares.

Rainha Elizabeth chegando ao Epsom Derby, em 2015. Note-se a Harpa Gaélica na bandeira e na capota do carro.

Da mesma forma, também não vemos mais a harpa antiga nos brasões concedidos à sua descendência e familiares, que como se sabe, usam brisuras das armas da Rainha, como é o caso do Duque de Sussex e de sua Esposa:

As Armas da Duquesa de Sussex

As armas da Duquesa de Sussex, num escudo partido com as armas de seu marido, neto da Rainha. A harpa não tem um vislumbre de figura humana sequer.

A Heráldica é uma Arte

Porém, algo que não podemos esquecer é que a heráldica é uma linguagem que permite múltiplas representações artísticas do mesmo conceito (o brasão em si). Portanto, independente de como se desenhe a harpa, as armas do Reino Unido (fora da Escócia) seguem as mesmas:

Quarterly, I and IV Gules, three lions passant guardant in pale Or langued and armed Azure. II Or a lion rampant Gules armed and langued Azure within a double tressure flory-counter-flory Gules. III Azure a harp Or stringed Argent.

Esquartelado: I e IV de vermelho, três leões passantes guardantes de ouro, armados e lampassados de azul. II de ouro, um leão rampante de vermelho, armado e lampassado de azul dentro de uma orla dupla flordelisada de vermelho. III de azul, uma harpa de ouro, cordada de prata.

Ou seja, heraldicamente, a harpa de seios de fora não está errada. Vejam a foto do o Garter King of Arms. Já falamos sobre Sir Thomas Woodcock antes. Eu o considero, indubitavelmente, o homem mais importante da heráldica nos nossos dias. No tabardo, vestimenta oficial de sua função, a harpa antiga.

Fonte: Christopher Bellew. Foto por Hugo Rittson Thomas

Ficam as teorias e as especulações sobre a mudança no desenho. Poderia ter sido isto uma tentativa de aproximá-la da harpa da República da Irlanda, seja visando uma reaproximação? Talvez uma forma de estabelecer uma possível reclamação territorial? Ou quem sabe pode ter sido um impulso moralizador da própria rainha, buscando substituir a tão criticada nudez feminina e os tão polêmicos mamilos por uma solução mais pudica?

São pequenos detalhes como estes que fazem a Heráldica ser tão interessante afinal. Ela é, mesmo depois de tantos séculos, uma ciência viva e sujeita às mudanças do mundo.

 

5 livros grátis para aprender sobre Heráldica

Um bom livro é o melhor amigo que se pode ter, diz-se por aí. E se você quer aprender heráldica, não há outra forma tão boa quanto cercar-se de livros sobre o tema. Dizem alguns que a Heráldica é uma ciência morta, que seus desenhos estão ultrapassados e que seus princípios são coisa de gente velha. O que é, seguramente, uma bobagem.

Se fosse assim, não teríamos o College of Arms Britânico contratando novos passavantes anualmente. Não teríamos personalidades, cidades e outras pessoas físicas e coletivas assumindo armas. Não teríamos livros sendo lançados, e com certeza não teríamos páginas de Instagram e grupos de Discord, verdadeiras mecas digitais do público jovem, destinados à Heráldica.

Por isso existimos nós, os aficionados, catalogando e trazendo a público livros de heráldica. Por vezes, pinçando em sebos ou em arquivos digitais. Estes últimos, fazem menos danos ao nosso sistema respiratório. E é graças a estes, em sua maioria, que podemos compartilhar cinco dos melhores livros para aprender sobre a matéria.

Em tempo: Os livros que compartilhamos estão disponíveis legalmente na internet. Há inúmeros métodos de conseguir livros protegidos por direitos de autor, aí pelos torrents, trackers e fóruns da vida. Porém, por mais que este blog seja ávido defensor da cultura livre, respeitamos os direitos de autor e não compartilhamos pirataria de nenhum tipo. Assim, evitamos de sofrer represálias ou outros problemas jurídicos. Vida de pesquisador no Brasil não é nada fácil, não vamos piorar as coisas…

Sem mais delongas, vamos à seleção:

Introdução ao Estudo da Heráldica, do Marquês de Abrantes

A melhor obra introdutória sobre Heráldica disponível em Língua Portuguesa, escrita por D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora, Marquês de Abrantes na Nobreza de Portugal.

Pessoalmente, gosto tanto deste livro que imprimi uma cópia física para mim. A edição é de 1992, e foi disponibilizada pelo Instituto Camões. A perfeita contextualização histórica do autor Marquês garante, de fato, uma leitura de altíssimo nível. Clique na capa do livro para baixar.

Princípios de Heráldica, de Vera Lúcia Bottrel Tostes

Tenho meus dois pezinhos atrás com Tostes, que se posicionou como herdeira do trabalho de Gustavo Barroso pela Heráldica Nacional, mas preciso dar o braço a torcer por seu trabalho. Apesar de alguns erros, que eu desconfio que procedem de transcrições malfeitas, e algumas informações desencontradas, o trabalho da autora carioca é bem ilustrado e segue sendo uma introdução valiosa para quem está começando!

Assim como o trabalho de Abrantes, este livro ainda não está em Domínio Público, e edições do original de 1983 estão a venda em sebos online, como a Estante Virtual. Felizmente para nós, o próprio Museu Histórico Nacional, onde Tostes foi diretora, disponibiliza acesso ao livro gratuitamente. Clique na capa do livro para acessar.

 

Archivo Nobiliarchico Brasileiro, dos barões de Vasconcelos

Nesta obra rara, datada de 100 anos atrás, portanto já em Domínio Público, duas gerações dos barões de Vasconcelos coletam a Nobreza Imperial. A obra foi editada em Lausanne e tem brasões desenhados po Fernand Junot.

Um dia, no futuro, quando eu não tiver mais nenhum trabalho ou universidade tomando o meu tempo, penso em preparar uma edição renovada e ampliada com outros brasões posteriormente descobertos em outros arquivos.

Enquanto isto não acontece, ficamos com a edição original, disponibilizada pela Biblioteca Digital Luso-Brasileira, uma iniciativa da Biblioteca Nacional. Clique na capa do livro para acessar.

English Heraldry with nearly five hundred illustrations, de Charles Boutell

Boutell é o livro básico da Heráldica Inglesa. Sua leitura é, até os dias de hoje, essencial. Ele é útil para aprender formas e conceitos inerentes à Heráldica das terras da Rainha. Foi com este livro que eu estudei para o meu exame de acesso ao nível de Associate Fellow da International Association of Amateur Heralds.

Para evitarmos problemas com o pessoal das editoras, a edição que estamos compartilhando aqui é a de 1908, revisada por Arthur Charles Fox-Davies. Esat é uma edição da Universidade da Califórnia, para livre acesso e download, disponibilizada pelo The Internet Archive. Mas visitando o site do próprio Internet Archive, é possível “emprestar” edições mais recentes, revisadas por John Philip Brooke-Little, um admirador do trabalho de Fox-Davies.

Clique na capa do livro para acessar a edição de 1908. Clique aqui para a edição de 1978, que requer, porém, uma conta no Internet Archive para um empréstimo temporário.

Tratado de Heráldica y Blasón, de Francisco Piferrer

Um dos grandes volumes da Heráldica Espanhola, até hoje citado por especialistas no assunto. É o mais antigo de todos nesta lista, tendo sido lançado em 1853, portanto há quase 170 anos. Ainda assim, é uma excelente cartilha para quem curte o idioma de Cervantes.

Ainda que a digitalização, disponibilizada pela Universidade da Califórnia através do Google Books, não ser a mais gentil com as ilustrações de José Asensio y Torres, este segue como o meu livro favorito de Heráldica Espanhola, por sua leitura bem fácil. Pode ser lido online, baixado ou até mesmo pelo celular, através do aplicativo Google Books. Clique na capa do livro para acessar.

Uma última dica

Um bom livro é o melhor amigo que se pode ter, diz-se por aí. Se você der uma pesquisada nesses links aí, vai conseguir encontrar livros tão bons quanto esses. Desejo bons estudos de Heráldica, e até o próximo post!

O que é um brasão?

Bem-vindos ao texto básico do Heráldica Brasil: “O que é um brasão?” É um texto um pouquinho mais longo, contudo compreender este conceito é importante para todo estudioso de Heráldica. Se vocês tiverem dúvida sobre qualquer conceito apresentado nesse website, voltem a esse texto e o leiam calmamente, porque se este conceito não ficar claro, muito do blog pode ficar meio nebuloso.

O que é um brasão? é uma pergunta que parece inócua. Tanto que a grande maioria das pessoas passa por toda a vida sem precisar pensar nela. Brasões não são grande coisa nos dias de hoje, pelo menos não para nós. Com a evolução das capacidades militares, carregar um escudo decorado para nos diferenciar não é necessário.

Apontamentos de Heráldica

Eu sou um estudante muito displicente. E um blogueiro ainda mais displicente. Nestes últimos oito ou nove anos em que estou pesquisando sobre brasões, nunca consegui sistematizar muito do meu aprendizado. E esse blog então… Vive bem parado. E já que eu pessoalmente não consigo fazer muito disso, hoje trago-lhes a sugestão de leitura de alguém que consegue: O Miguel Linhares, membro do nosso Grupo no Facebook iniciou no começo do ano um excelente blog, o Apontamentos de Heráldica. Se alguém aqui ainda não conhecia, peço que imediatamente encaminhe-se para a leitura por lá.

Armas do Miguel Linhares, do Blog Apontamentos de Heráldica

 

Sendo um excelente professor e tradutor, o Miguel tem trazido dezenas de conteúdos muito interessantes, que contribuem e muito para o estudo de Heráldica. Em apenas 10 meses de publicação, o blog já tem mais de 140 publicações. É algo que este displicente que vos escreve nem sonha! O Apontamentos de Heráldica se tornou rapidamente o meu blog preferido sobre a matéria, porque o autor é um grande estudioso da matéria. A partir da análise e da tradução de armoriais e tratados, especialmente em Latim, sobre Heráldica, o Miguel fornece subsídios valiosos para todos nós, que temos interesse na área.

É uma leitura obrigatória para quem quer aprender mais sobre isso!

Um esclarecimento

Brasão HB assinatura esclarecimento

 

Para esclarecimento:

Chegou ao meu conhecimento que perfil no Instagram do Heráldica Brasil (@heraldicabrasil) foi marcado, na tarde de ontem, em um story de um perfil de um Deputado Estadual de São Paulo. No entanto, gostaríamos de esclarecer que essa publicação é um engano, e pior ainda, um péssimo engano.

Infelizmente (ou felizmente) ontem eu estava envolvido em outros assuntos e não pude fazer a minha ocasional visita àquela rede social. Eis que, enquanto o nosso perfil foi marcado, o que consta do perfil do dito deputado é que o mesmo esteve presente a um encontro “daquela” associação de medalhados.

Sim, aquele grupo de nome extenso e estatuto ainda mais extenso. Aquela “sociedade” que de heráldica não tem nada, e que já foi citada por este blog uma vez. Se as senhoras e senhores são leitores deste humilde blog, sabem a que me refiro. Se não sabem, sigam os links, é uma leitura até bem divertida.

Portanto, foi apenas isso mesmo. Um lapso, e não de nossa parte. Reiteramos o esclarecimento de que não temos e nem queremos ter nenhum contato com essa instituição. Afinal, não duvido que até para isso ela nos cobraria.

Por favor não nos misturem com esse tipo de gente. Se ganhamos algum seguidor com o story deste deputado, que eles possam ao menos entender a verdade dos fatos e separar o joio do trigo, os que se dedicam à heráldica e os que apenas se servem dela para encher os seus egos e os seus bolsos.

Sem mais, agradecido pela atenção.

John Rafael
Administrador.

Apoio aos criadores

Senhoras e senhores, tendo recebido algumas denúncias de plágio e vazamento de material de criadores do grupo para mãos mal-intencionadas, a administração vem esclarecer algumas informações:

A questão é…

O Heráldica Brasil não compartilha e não compactua com pirataria de livros, ebooks ou materiais de desenho heráldico. Todo o material utilizado, citado e apresentado no blog ou nas publicações da administração cumpre as políticas de direitos autorais vigentes. Podemos citar como exemplo:

A imagem da capa do grupo (e também do blog) é uma página do Armorial de Bellenville, que está em domínio público há centenas de anos, e que foi digitalizado pela Biblioteca Nacional da França.

Armorial de Belenville, Folio 50.

Armorial de Bellenville, Folio 50. Digitalizado pela Biblioteca Nacional da França.

O desenho do brasão que adorna a capa e o avatar do grupo tem algum material proveniente do Wappenwiki e do Servidor do r/Heraldry no Discord, e foi produzido sob uma licença Creative Commons, corretamente informada.

Brasão do Heráldica Brasil com Assinatura

Brasão do Heráldica Brasil, construído com materiais do Wappenwiki e do r/Heraldry.

Outros materiais, como a Biblioteca de ebooks do Instituto Paraibano de Heráldica e Genealogia e os Cadernos do Barão de Arede foram gentilmente cedidos pelos detentores do copyright, e para estes, a administração mantém as devidas autorizações em arquivo.

Compreendemos que a pirataria na internet é prejudicial aos verdadeiros criadores do trabalho, e deste modo causa prejuízo, não apenas financeiro. Encorajamos as pessoas a distribuírem seus estudos e obras livremente, pelo bem da arte. Porém sabemos que nem sempre é possível, e então apoiamos os criadores desta forma.

Como decidimos lidar com isto, pelos criadores?

Reafirmamos incondicionalmenteo nosso compromisso de fornecer fontes o mais exatas possíveis para todas as nossas publicações, mesmo as retroativas. Assim, se encontrarem pelo blog alguma imagem ou citação sem fonte, não hesitem em nos comunicar e faremos a correção o mais breve possível. Nossa posição quanto ao plágio é completamente imutável e será mantida a despeito de quaisquer circunstâncias.

Ainda com isto em mente, a administração do Heráldica Brasil emendou as regras do grupo com o seguinte artigo:

Para garantir a integridade do Heráldica Brasil e proteger os direitos de autor dos criadores de conteúdo, qualquer membro que for denunciado por desviar informação com fins prejudiciais aos seus criadores e ao grupo será EXCLUÍDO IMEDIATAMENTE, sem direito a apelação.

Entendemos que esta medida não é suficiente para o fim do plágio, no entanto esperamos aliviar, ao menos um pouco, a ocorrência deste.

Sem mais, agradecemos a paciência.

A administração.

Na biblioteca: Elucidario Nobiliarchico

Adicionando mais volumes à Biblioteca do Site nesta segunda! O Elucidario Nobiliarchico foi uma publicação capitaneada por Afonso de Dornelas, fundador do nonagenário Instituto Português de Heráldica. O IPH, ainda que não responda às minhas mensagens, é uma instituição de grandessíssima valia para os interessados em Heráldica Luso-Brasileira. Falta-lhes, contudo, uma presença virtual mais forte, como a maioria das instituições heráldicas do século passado.

Selo IPH tratado - Elucidário

Selo do Instituto Português de Heráldica.

O Instituto foi fundado em Julho de 1929, enquanto Dornelas publicava a segunda edição do Elucidario. Decerto, esta terá sido a razão de não termos tido mais edições. Esta publicação foi substituída pela revista Armas e Troféus, publicação do IPH que é editada até os dias atuais.

O Elucidario Nobiliarchico foi uma edição fasciculada, um método de publicação que parece ser recorrente entre as obras heráldicas dos primeiros trinta anos do século passado. As publicações eram mensais, e foram publicados vinte e quatro fascículos. O primeiro volume é de 1928, e o segundo de 1929. Ao fim das doze publicações de um ano, contudo, elas poderiam ser compradas todas juntas. Por uma módica quantia, ainda podiam ser encapadas a couro.

O Elucidario dividia-se primariamente em duas seções: A primeira, de heráldica de domínio das cidades portuguesas, imagens e descrições de cartas de armas

Tendo já se passado mais de setenta anos do falecimento de Dornelas, suas obras passam a ser de domínio público. Para honrá-lo e demonstrar gratidão pelo seu trabalho, dedicamos esta publicação à sua memória. Que possa esta publicação alcançar a todos os leitores e que saibam estes quem foi seu editor. Ainda mais, que conheçam seu contributo para a Heráldica.

A edição que adquirimos, evidentemente digital, é uma digitalização dos vinte e quatro fascículos originais, pertencentes à Hemeroteca Municipal de Lisboa. Felizmente, está em ótimas condições. De facílima leitura. Clique no link abaixo para ir até a seção da biblioteca onde se encontram os volumes.

Elucidario Heraldico (1928-1929)

Em tempo, mais edições serão adicionadas esta semana. Também aceitamos sugestões e volumes digitais para serem adicionados. Se você possuir um volume autoral ou em domínio público que queira compartilhar, basta enviar para nós que adicionaremos à Biblioteca do site. Não podemos adicionar livros protegidos por direitos de autor, afinal não queremos ser tirados do ar por pirataria.

Boletins do College of Arms, 56 e 57

College of Arms, Londres. Foto por Georgia Evelyn Stants

O College of Arms, Autoridade Heráldica da Inglaterra, do País de Gales e de boa parte da Commonwealth, produz um boletim trimestral com notícias sobre novas armas concedidas. Noticia ainda palestras oferecidas por seus Reis de Armas e faz visitas aos arquivos da instituição.

Esta Newsletter é encaminhada por e-mail para todos que subscrevam, no entanto também pode ser acessada no site do College. Tenho o hábito de ver os meus e-mails sempre de manhã cedo, e para isso, esta newsletter é muito boa. Sua periodicidade me dá, afinal, tempo suficiente para limpar a minha caixa de entrada antes de recebê-la. Desta vez, a correria de fim de ano me impediu de publicar a edição 56 antes. As edições 54 e 55 estão disponíveis também.

Boletim do College of Arms, 56

A newsletter de outubro trouxe como destaque o papel do College na proclamação da paz após o Tratado de Versalhes. Há ainda a promoção de uma “breve exposição” sobre a Primeira Guerra, feita em outra página do site. Esta que apresenta brasões concedidos na época, assim como documentos relativos ao trabalho dos arautos britânicos durante a guerra.

Boletim do College of Arms, 57

Armas do 1º Visconde Allenby, marechal de campo Edmund Allenby (1861-1936). Os suportes, um cavalo e um camelo, simbolizam aspectos de sua carreira militar: ele comandou a divisão de cavalaria da Força Expedicionária Britânica na Frente Ocidental, depois de 1917 foi Comandante-em-Chefe da Força Expedicionária Egípcia na Palestina.

O segundo boletim chegou hoje de manhã bem cedo, e traz um caso bem curioso. Um diplomata britânico na Pérsia, Sir Harford Jones, então recentemente enobrecido como Baronete Boultibrook, recebe uma incomum condecoração. Nada menos que o direito de usar as armas do Império Persa! Certamente uma história bem interessante. A qual podem acompanhar seguindo o link abaixo:

Boletim do College of Arms, 57

Para além disso, as usuais novas concessões heráldicas, sempre executadas de forma belíssima, e sempre renovando. Desta vez, há umas armas com barras de alumínio e outras com um abacaxi no timbre. O College of Arms é a prova viva de que a heráldica não é uma ciência morta. Aliás, está vivíssima e fazendo-se cada dia mais moderna. Há ainda uma pequena nota in memoriam ao falecimento de um antigo Rei de Armas da Jarreteira. Sir Conrad Swan, que faleceu no início do mês, foi lembrado pelo boletim.

Um brilhante manuscrito

Primeiramente, quero desejar um feliz ano novo a todos vocês! Estamos começando mais um ano no Heráldica Brasil, que será de muitos planos, ideias para colocar em prática, novidades na biblioteca e muito mais! Para iniciar o ano, teremos algo bem especial. Vamos passar por Roma, por Portugal, pela Índia e vamos até o Japão com um único manuscrito.

Encontrei um belíssimo manuscrito entre as minhas antigas publicações na página do Facebook. Olhando-o novamente, percebi que estava deixando passar não só um belíssimo documento histórico, mas uma peça heráldica de valor inestimável.

Carta do Vice-Rei da Índia, Duarte de Meneses, ao Daimyō do Japão, Toyotomi Hodeyoshi
O Manuscrito de Meneses a Hideyoshi.

Ao mui alto e poderoso Kwambaku-dono, (escreve) Dom Duarte, Vice-Rei da Índia.

Como quer que pela distância das terras não houve até agora entre nós comunicação, todavia pelas cartas dos padres que estão nesses reinos de Vossa Alteza soube a grandeza de vossas vitórias e obras e a fama e nome, que ainda nas partes que estão mui longe se ouve de Vossa Alteza e como sujeitou a seu império os maiores senhores e reinos das quatro partes do Japão, coisa que nunca fora ouvida desde os antigos até agora, o que sem dúvida é admirável o favor do céu e coisa de grande admiração, de que grandemente me alegro.

Soube também que os padres que estão nestes reinos recebem muitos favores de Vossa Alteza, e com o resplendor de seu favor, vão promulgando, pregando e ensinando a lei para salvar os homens, os quais são religiosos destes reinos dignos de veneração, que conforme a seu instituto passam a todas as partes do mundo para ensinar o verdadeiro caminho da salvação, e ao saber deles os favores que Vossa Alteza lhes faz, me tenho alegrado muito.

E por eles me pedirem que escrevesse a Vossa Alteza, e lhe mandasse um embaixador dando-lhe as graças disto, folguei de o fazer. E porquanto o Padre Visitador estes anos atrás foi outra vez a esses reinos de Vossa Alteza e é conhecido nessa terra, lhe encarreguei esta embaixada, e peço a Vossa Alteza que que daqui em diante mais e mais o queira favorecer. E podendo destes reinos servir a Vossa Alteza em alguma coisa folgarei muito de o fazer.

Em sinal de amor mando a Vossa Alteza dois montantes, dois corpos de armas, dois cavalos com seus arreios, dois pistoletes e um terçado, dois pares de guadamecis dourados e uma tenda para campo.

Feita nestes reinos da Índia no mês de Abril do ano de 1588.

Vice Rei da Índia

Afinal, que manuscrito é esse?

Este manuscrito é uma carta de Duarte de Meneses, Vice-Rei da Índia, ao Daimyō do Japão, Toyotomi Hideyoshi. A transcrição e a adaptação são nossas. A carta, toda cheia de mesuras e cortesias, merecia uma discussão por si só, se pensássemos no contexto histórico, cultural e social em que foi escrita. Segundo fontes de história japonesa, ao contrário do que a carta faz parecer, Hideyoshi era extremamente hostil aos cristãos. Supõe-se, então, que Duarte de Meneses oferecia-lhe presentes como forma de tentar intercedes pelos missionários portugueses que lá iam pregar. Mas há ainda mais coisa que faz deste documento uma peça única. E para mim, deveria receber a atenção de todos os heraldistas. Notem a quantidade de insígnias existentes. Pelas minhas contas atuais são seis, deixando de contar as que se repetem.

Contando a História Romana aos Japoneses

No canto superior direito da imagem, há um escudo de vermelho, com uma cruz e a divisa SPQR posta em banda entre dois filetes do mesmo, tudo de ouro. Armas estas que representam tradicionalmente o Senado Romano. Até os dias atuais, estas armas, sem os filetes, são as armas de Roma. 

No canto superior esquerdo, um escudo de azul com um contrachefe cosido de verde, sobre o qual uma loba de sua cor amamenta dois bebês humanos de carnação. Estas armas referem-se à fundação de Roma, e uma versão similar é apresentada, posteriormente. No primeiro Thesouro de Nobreza de Francisco Coelho Mendes, Rei de Armas Índia, produzido cerca de noventa anos depois, veem-se armas similares.

O Heraldry of the World tem uma página dedicada as armas relatadas à Cidade Eterna. Recomendo a visita nos links deste parágrafo.

Mais para o centro da parte superior do manuscrito, vê-se um terceiro escudo, de vermelho, com um raio de ouro, característico da Legião Romana. E há ainda um quarto, de azul, com uma cabeça de leão de ouro. Quanto a este, eu infelizmente não tenho informações. No entanto, se alguém souber de algo, esteja sempre à vontade para entrar na conversa.

Um Brasão para o Vice-Reino da Índia?

Supostas Armas do Vice-Reino da Índia no manuscrito.

Outro brasão do qual eu não tenho notícia anterior ou posterior é o quinto, que aqui aparece nas duas laterais da carta. Eu o leria como um escudo de azul, um crescente de ouro, contendo cinco besantes de ouro, postos em sautor. A interpretação me parece simples aqui. São as quinas de Portugal, acompanhadas por um crescente, símbolo comum no levante. Minha teoria é de que sirvam para representar, ainda que de forma extra-oficial e nunca registrado, o Vice-Reinado da Índia. Pode-se notar muita coisa na imagem ao lado.

O timbre destas armas é de fato, um mistério. Posso perceber figuras como de um elefante e uma tartaruga ou serpente. A minha teoria é que este timbre alude ao mito hindu das criaturas que sustentam o planeta em suas costas: A tartaruga (ou serpente) e o elefante. Mais sobre esse mito, que é de fato pouquíssimo conhecido, eu encontrei no blog Índia, um país místico.

Contatos entre a heráldica ocidental e a “heráldica oriental”

No entanto, ainda que tenhamos passado por Roma e pela mitologia Hindu, não é ainda o fim. A insígnia mais interessante deste manuscrito não é exatamente um brasão. Vejam dentro do C capitular, numa espécie de escudo redondo. E reparem ainda como o próprio C é coroado por um arco adornado de pedras na ponta central.

Na verdade, esta é a representação de um emblema, ou em japonês, mon. O uso de Kamon (Mons clânicos) é bastante comum entre as classes superiores japonesas durante o período Sengoku. Este período, também conhecido como “Era dos Estados Beligerantes”, nos séculos XV e XVI, ficou famoso mundialmente por seus samurais.

E é justamente na época em que Duarte de Meneses está na Índia, como vice-rei, que Toyotomi Hideyoshi é o Shogun mais poderoso do Japão. O emblema que vemos na Carta intenciona representar o mon adotado pelo Clã Toyotomi, que em japonês, é chamado  Go-shichi no kiri (Em tradução livre, paulownia de cinco e sete). Hoje, este mon é utilizado pelo gabinete do Primeiro-Ministro do Japão.

Goshichi no Kiri
Emblema do Primeiro Ministro do Japão.

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